Posted by : Taty L. 19 de fev de 2014

Pra quem gosta de Supernatural vai adorar essa notícia, eu encontrei na internet esses dias um livro da serie chamado O Guia de Caça de Bobby Singer, acredito que muitos já tenham lido. Mas para a felicidade de quem ainda não leu, agora vocês poderão ler online aqui no DDH. Eu tentei achar online para ler, mas não encontrei nenhum lugar em que o conteúdo estivesse disponível. Então eu comprei o livro e agora estou disponibilizando para vocês,  amantes da serie. Vou tentar postar diariamente porque ele realmente é incrível. Mas para quem não quer esperar Clique Aqui e compre o livro no mesmo site em que eu comprei (Saraiva). Vale a pena comprar e ter em sua coleção.

Introdução

Meu nome é Bobby Singer. Em vinte e quatro horas vou perder minha memória. Então, aqui esta tudo o que você precisa saber.

Monstros, demônios, anjos, vampiros, o bicho-papão debaixo da sua cama - tudo isso é real. Eu os vi, cacei e matei. Existem outros caçadores como eu, mas não tantos como existiam antigamente. Não chega nem perto da quantidade necessária.

Aprendi tudo que pude sobre cada criatura maldita que anda, rasteja ou voa, e não vou deixar que tudo seja em vão. Não vou sucumbir sem lutar. Não vou deixar que tudo que aprendi desapareça. Então, é isso que você está segurando em suas mãos - é tudo o que sei. Tudo que possa ser útil para Sam e Dean e os caçadores que vierem depois de mim.

É um Guia de Caça... é um guia de mim. Minha última vontade e testamento. Seus idiotas.

O Guia de Caça de Bobby Singer


Um buraco na minha cabeça

  Eu pensei que morreria ensanguentado. Me parecia a coisa mais provável, levando em conta a minha linha de trabalho. Eu já olhei na cara da morte ( Literalmente... ele é um cara legal, na verdade) e, para ser completamente honesto, achei que minha hora ia chegar há muito tempo atrás. Eu sempre imaginei que ia ter algum sentido... que minha marca nesse mundo seria mais permanente que a mancha do meu sangue no chão. Mas, ao invés disso, vou ficar em estado vegetativo, balbuciando, a mente danificada a ponto de não conseguir virar uma maçaneta de porta, nem muito menos me alimentar. Aí está um pensamento sóbrio - vou morrer de fome com a metade de uma vaca no congelador.
  Eu deveria voltar um pouco atrás. Isso não vai servir de nada, se não fizer sentido.
  Há três dias - caramba, talvez até mais, eu não tenho certeza - eu estava em um lugar chamado Ashland no norte de Wisconsin. Tão ao norte que poderia até ser o Canadá. A cidade tinha uma série de desaparecimento e nenhuma pista. Havia muita evidencia, mas a polícia local não conseguia juntar lé com cré.
  Espere. Eu preciso recuar ainda mais.
  Meu nome é Bobby Singer (ao menos, ainda me lembro disso). É bem provável que você não me conheça... pois quase todos meus amigos estão mortos e enterrados. Como eu disse, vem com o território. Se você é um novato no jogo, aqui vai o básico: você se lembra de todas aquelas coisas das quais você morria de medo quando era um pirralho? As coisas verdadeiramente terríveis que te davam um calafrio no corpo inteiro? Monstros, demônios e o bicho-papão debaixo da cama - tudo isso é real. Eu os vi, os cacei e os matei. Existem outras pessoas como eu - caçadores - mas não tantos como existiam antigamente. Não chega nem perto da quantidade necessária. Graças a eventos recentes, nós somos uma espécie em extinção e eu sou da raça antiga. Aprendi tudo que pude sobre cada bicho maldito que anda, rasteja ou voa e eu não vou deixar que tudo seja em vão.
  De volta a Wisconsin. O que parecia um caso evidente... bem, não deve ter sido. A última coisa de que me lembro é ver Ashland no meu retrovisor e estar dirigindo em direção a oeste para Sioux Falls, onde eu planejava tomar um banho comprido e assistir a maior quantidade possível de porcarias na tevê até que a próxima catástrofe me encontrasse. Aí, eu acordei em casa. Bem, "acordar" me parece um termo gentil demais, como se eu tivesse aberto meus olhos ao som de passarinhos enquanto o sol nascia - não, eu levantei de susto, gritando a plenos pulmões e quase despencando do sofá quando dei por mim. Bem, eu não vou mentir para você... álcool pode ter sido um fator. Não seria a primeira vez que uma bebida barata me deixou mal, mas isso parecia outra coisa. A dor de cabeça aguda estava presente e computada, mas algo importante estava faltando: memórias.
  No começo, foram coisas aleatórias. Fui à cozinha, procurando uma bebida para curar a ressaca e a coisa mais estranha aconteceu... Eu não consegui lembrar qual era o armário de bebidas. Novamente, você pode não me conhecer, mas isso é caso sério. Não demorei muito para achar, mas por aquele minuto e meio o mundo não estava certo.
  Fazendo um balanço das coisas, era difícil ignorar o lançador de granadas abandonado no chão da minha sala de estar. Não costumo mantê-lo ali. Bom, a farra deve ter sido mesmo grande. Enquanto tentava me lembrar de como aquilo chegou lá, arrumei a casa, colocando as armas e equipamentos, que estavam espalhados por todos os cantos, em seus devidos lugares. O lançador pertencia ao andar de baixo, ao depósito de armas do porão. Não importa o quanto eu quisesse deixar ele exposto para servir de tópico de conversa, os convidados tinham uma tendência a reagir de forma exagerada a sua presença. Não é como se eu o usasse para caçar cervos. Eu tenho um arco e flecha semiautomático para isso. Girando o botão de combinação do cadeado da armaria, minha vida deu um branco. Eu abri aquele armário todo dia por mais de uma década e, de repente, não consegui recordar qual era a combinação. O aniversário de alguém, talvez? Eu tentei o meu, mas nada feito. Tentei algumas outras coisas, mas vamos ao que interessa - vinte minutos depois eu estava lá com um maçarico e um alicate.
  Alguma coisa estava errada comigo. Eu não conseguia me lembrar onde tinha deixado as chaves do meu carro; eu não conseguia sequer me lembrar de onde tinha deixado o carro. A entrada de carros estava vazia. O que quer que tenha acontecido entre Ashland e Sioux Falls deixou um buraco no meu celebro e eu estava vazando memórias. Na minha vida antiga, quando eu era apenas um mecânico qualquer, o diagnóstico teria sido doença de alzheimer. Mas eu não sou mais um mecânico qualquer e tudo que aprendi nos últimos 20 anos me dizia que isso não era natural.
  Só há uma coisa a fazer: ligar para os irmãos Winchesters. Aqueles delinquentes tem um talento para se safar de encrencas, mesmo que eles não mereçam; me pareceu justo que eles me ajudassem a sair de uma para variar um pouco. Claro que, para me ajudar, eles teriam que atender a droga do telefone primeiro. Esses garotos tem mais números que uma lista telefônica chinesa, mas minhas ligações foram direto para a caixa postal em todos eles. Seria muito mais fácil localiza-los se eu conseguisse lembrar para que direção eles estavam indo na última vez que os vi, mas a vida não é tão fácil assim. Até onde eu sabia, eles podiam estar lá em cima, desmaiados. Depois que isso me veio à cabeça, eu tive que checar todos os quartos da casa para ter certeza de que isso não era verdade - eu não estava prestes a deixar aqueles idiotas chegarem de supetão como se fosse uma espécie de pegadinha.
  Bem, e não era. Não havia sinal dos meninos em lugar algum, nenhum sinal do meu carro em lugar algum, nenhuma pista de onde eu tinha estado entre Ashland e minha casa. E se você não percebeu até agora para onde isso está indo eu ainda não faço a mínima ideia. E esta piorando. Eu tentei visualizar a cara de minha mãe essa manhã... não consegui.
  Mas o ponto principal é que não sei o que aconteceu comigo. Eu não sei se vou conseguir consertar isso. Mas tenho absoluta certeza de uma coisa, eu não vou sucumbir sem lutar. Não vou deixar que tudo que eu aprendi desapareça. Então, isso que você está segurando em suas mãos - é tudo o que eu sei. Tudo que possa ser útil para outros caçadores que vierem depois de mim... E isso inclui vocês, Sam e Dean. É a única esperança que tenho de consertar o vazamento no meu coco. É um guia de caça... é um guia de mim. Minha ultima vontade e testamento.

A Banshee  de Ashland

  Você sabe aquela sensação de que você tem quando está contando uma história e você sabe que está deixando as melhores partes de fora? Essa é minha vida no momento, 24 horas por dia, sete dias por semana. Então, me desculpo com antecedência se eu pular uma parte suculenta. Não consigo me lembrar das coisas das quais eu não me lembro, se você entende o que eu estou dizendo.
  Me deixe começar descrevendo a minha rotina matinal típica: acordar com o sol, aparar a barba (a limpeza esta perto da divindade, como diz o ditado), começar a fazer o café da manhã e ser interrompido na metade por alguém ligando com uma catástrofe. Você pode marcar no relógio - assim que os ovos começam a fritar, algum idiota precisa da minha ajuda. Geralmente, são Sam e Dean. Eles parecem se meter em mais complicações do que a maioria, o que é dizer muito nessa linha de trabalho. Até alguns meses atrás, Rufus Turner era o segundo candidato mais provável a ligar - que sua alma repouse. O restante das ligações vinha de outros caçadores de todo o país - de todo o mundo, agora, se você contar meu amigo Eli em Budapeste. Ele foi caçar um vampiro lá e gostou tanto da comida que nunca mais voltou para casa. Ou foram mulheres? De qualquer jeito, seu apetite está sendo saciado. Na maior parte do tempo, a pessoa ao telefone só precisa de alguma informação. O que você usa para matar um ghoul? Que tipo de criatura suga o sal todinho para fora de você? Esse tipo de coisa. Outras vezes, um caçador precisa de... um apoio mais direto.
  Portanto, não me surpreendeu nem um pouco receber uma ligação na última quinta de manhã, me perguntaram  se eu poderia investigar os desaparecimentos de quatro homens em Ashland. Quem me ligou, bem, essa parte é um borrão. Porém, deve ter sido alguém em quem confio ou eu não teria dirigido todo esse percurso. Acredite em mim, não há muito que valha a pena ver ao norte de  Wausau.  Entrei no meu Chevelle e fui para o leste na I-90.
  Ao me aproximar de Ashland, comecei a ficar nervoso. A floresta Chequamegon ao sul da cidade é assombrada, todos sabem disso. O que ele não sabem é que o medidor de campo eletromagnético é inútil nessa floresta. Para os caçadores novatos, medidores de campo eletromagnéticos são trecos portáteis que conseguem detectar quando um fantasma está presente, ou esteve, há pouco tempo. Eles são o melhor amigo de um caçador, e salvaram minha pele muitas vezes. Assim que você entra nessa floresta, o medidor acende que nem uma árvore de natal e não por causa dos fantasmas, mas devido á marinha americana. Eles têm um transmissor em Clam Lake que se comunica com submarinos nucleares e fode com nossos aparelhos. Isso significa que você não terá nenhum aviso prévio quando os fantasmas se aproximarem, então fique atento. Me pergunto se é por isso que os fantasmas se reúnem aqui.... porque eles gostam das vibrações amigáveis? Que inferno, eu estou fugindo do assunto. Ashland...
  Os homens desaparecidos eram todos cidadãos do bem - pagavam seus impostos, rezavam regularmente, tratavam bem suas mulheres. Com exceção do mais jovem, que ainda não era casado. Eu falei com a mulher do primeiro homem a desaparecer, que poderia muito bem ter sido uma parede de tijolos. Ela só tinha coisas agradáveis a dizer sobre o querido falecido e não fazia ideia do que tinha acontecido com ele.
  Comecei a chegar a algum lugar com a próxima menina. Ela me contou que seu marido tinha ouvido algumas coisas, antes de desaparecer como o bebê Lindberg. Mas ele não estava ouvindo as coisas comuns -  vozes, instruções demoníacas, nada disso - ele estava ouvindo cantoria.
  Eu falei com a mãe do cara mais novo, Bea Engstrom. O nome me chamou atenção, porque a primeira garota com quem, bem, eu tive relações, o nome dela era Bea. Essa história em particular não precisa ficar registrada historicamente, porém - seu nome começava com B, mas ela era uma nota C+ no máximo. De qualquer maneira, Bea me contou a mesma coisa, o filho dela estava ouvindo alguém cantar. Ele não conseguia escapar do barulho, ouvia aquilo no seu apartamento, no trabalho, em todo lugar. Era uma voz feminina em uma língua que ele não conseguia compreender. Bea o mandou para o médico, ela achou que algo devia estar errado com seus ouvidos. Mas quando o médico não detectou nada, ele começou a beber, mais isso só fez com que a cantoria piorasse. Cinco horas depois, ele se foi.
  O último cara a desaparecer, um tal de Mr. Lavary, o caso dele foi o mais estranho. Ele acordou uma noite às três da manhã, entrou no seu carro e dirigiu em direção ao pântano fora da cidade. Quando ele começou a entrar no lamaçal (note-se que ainda de pijama), um caçador de cervos o avistou e perguntou que diabos ele estava fazendo. Ele não conseguia responder. Ele só entrou no seu carro e dirigiu de volta para casa. De acordo com a sua mulher, ele não sabia o que o levou a ir ao pântano, ele apenas sabia que deveria fazê-lo. Óbvio que quando ele desapareceu um dia depois um dia depois, o pântano foi o primeiro lugar onde a polícia procurou. Cães treinados de polícia vieram de longe de Eau Claire, mas não conseguiram fareja-lo. Lavery mencionou isso, mas eu aposto um milhão de dólares que ele estava ouvindo a mesma voz cantando e isso o levou a mergulhar no lamaçal.
  Então, eu juntei as pistas:

CANTORIA QUE NINGUÉM MAIS PODE OUVIR - isso já foi relatado com fantasmas em diversas ocasiões, mais notavelmente o caso de Greta Wilson. Wilson era uma cantora de ópera famosa em Nova Iorque nos anos 30, conhecida não tanto por sua voz vibrato, mas mais por seus atributos... grandes. A mulher era peituda e tinha uma grande rotação de amantes, um deles não quis dividi-la, então ele cortou sua garganta quando descobriu que ela estava passando de mão em mão. Para uma cantora de ópera, essa é a pior morte possível - ter suas cordas vocais cortadas. Ela não conseguiu nem gritar ao ser assassinada. A lenda diz que ela passou a assombrar os camarins da boate onde foi assassinada, cantando terrivelmente (mais uma vez, ela era conhecida por seus peitos, não sua habilidade de cantar) nos ouvidos das moças jovens que iam se apresentar. Já que Chequamegon é notoriamente assombrada, um fantasma cantante foi meu primeiro palpite em Ashland também, mas isso quebraria a regra número um dos espíritos: eles não viajam. Há exceções, mas eu vou falar sobre elas mais tarde. Nesse caso, não havia nenhuma evidência de que os homens estivessem perto uns dos outros nos dias antes de seu desaparecimento, então um fantasma não poderia ser o culpado.

CONVENCENDO PESSOAS A SE MATAR - essa é uma tática usada pelos pelos crocottas, desgraçados cruéis que chamam as pessoas pelo nome e muitas vezes convencem a vítima a se matar. Há alguns anos atrás, Sam e Dean caçaram um que estava usando o telefone e a internet para fingir que era uma pessoa querida. Dean até recebeu uma ligação de John Winchester. Coisa muito escrota, mesmo. O perfil combinava, mas eu nunca ouvi falar de um crocotta que cantasse para suas vítimas. Talvez esse fosse um fã de musicais, ou, talvez, se tratasse de uma coisa inteiramente diferente. Alias, a maioria das vítimas dos crocottas é achada morta, elas não desaparecem simplesmente.

O PÂNTANO - essa foi a peça que completou o quebra-cabeça. Pântanos são terrenos férteis para atividade sobrenatural, por todas as rasões que você espera. Eles são muitos, escuros e humanos costumam se manter à distancia. Esse pântano em particular, também era enevoado. Eu o visitei no meu segundo dia na cidade, quando se acabaram as pistas. A neblina era espessa, do tipo que parece que pode te sufocar. Como se você estivesse debaixo d'agua em plena terra seca. Olha, eu não sou o que as pessoas chamariam de homem internacional - eu visitei alguns lugares, mais não tantos quanto gostaria - mas aquela névoa me lembrou de um lugar que eu vi muitas vezes: a cervejaria Guinness. Eu nunca fui lá em pessoa, mas tem um livro no banheiro sobre as cervejarias mais famosas do mundo. Tem um artigo inteiro sobre a história de Guinness desde 1759 quando Arthur Guinness assinou um contrato de nove mil anos de aluguel de sua fabrica. Aquele homem tinha confiança em seu produto. Uma das fotos do livro é da casa de campo de Arthur Guinness na costa leste da Irlanda, perto de um lugar chamado Sworts* (nove incrível, em minha opinião). A casa estava nadando na névoa; a mesma névoa espessa e impenetrável que cobria o pântano em Ashland. Talvez, seja nela que Guinness achou inspiração para sua cerveja.

NÉVOA - a pista final. Caiu a ficha, bruscamente: a Bruxa das Brumas, também conhecida como banshee. Elas são nativas da Irlanda e da Escócia e se manifestam como uma mulher estérea, que canta para aqueles que estão prestes a morrer. A lenda é vaga na melhor das hipóteses, já que elas são muito raras no Estados Unidos, mas quase tudo encaixa. Porém, não consigo me lembrar de uma banshee que realmente tenha matado alguém. Elas servem mais como aviso, um prenuncio de más notícias. Me perguntei se uma banshee poderia estar operando de modo atípico, cantando para uma vítima que ela mesma estava prestes a matar? Não seria o primeiro monstro a agir de forma estranha nesse ano. Nunca pensei que veria uma lâmia ou um okami por essas bandas também. Uma coisa que eu não sabia sobre uma banshee era como matá-la, então tive que pesquisar. Isso é uma lição importante para os caçadores novatos por aí, então escute (leia... que seja) bem. Está tudo na sua frente.

  Toda a informação que você precisa e todo o folclore estão encarando bem a sua cara feia. Tente a biblioteca local, por exemplo. "Mas eles não têm uma seção sobre banir espíritos irlandeses," você choraminga. Sim, eles têm e se chama seção de livros infantis. Encontre um livro com canções tradicionais irlandesas e você encontrará o que precisa.

Debaixo do olho brilhante da lua/
Uma mulher canta suavemente/
Um aviso para aqueles que habitam/
Na terra dos que ainda não morreram/
Preste atenção em sua voz/
Ou erga seu ferro.
(Traduzido do gaélico)

  Tão claro quanto o dia. "Erga seu ferro," o que tenho certeza ser mais poético em gaélico, significa que elas são vulneráveis a ferro, como a maioria dos espíritos. Óbvio que isso não me ajudou em nada. "Vulnerável a" não significa "pode ser morta com". Eu já sabia como me proteger da banshee, mas não sabia como me livrar permanentemente dela. De volta ao folclore.
  Num livro de fábulas infantis, achei uma referência à banshee. As crianças na história estavam assustadas com o canto da banshee, já que isso significava que a morte ia visitar a família no futuro próximo. Uma mordedora de canelas em particular tinha ouvido a canção da banshee quando sua vó morreu. Ela sentia tanto medo de ouvir a canção da banshee de novo, que ela cantava  a canção do banshee para si mesma toda noite, tentando lembras as palavras certas desesperadamente para que ela a reconhecesse quando a banshee viesse mais uma vez. Quando a banshee voltou, a garotinha cantou a música para o espírito - a banshee sabia que a música estava sendo cantada para ela e que seu próprio tempo tinha chegado. Ela desapareceu na névoa e nunca mais ninguém a viu por aquelas partes. A canção era a chave. Repita-a para a banshee e ela será banida.
  Minha primeira reação: "Que saco. Vou ter que cantar".
 Dois desafios me esperavam: (1) fazer com que a banshee me procurasse e (2) falar gaélico. Consigo ler bem o suficiente para traduzir velhos documentos, mas falar em voz alta? eu estava, no mínimo, enferrujado.
  Ashland tem uma população de quase dez mil - ficar esperando para ser escolhido pela banshee não ia funcionar. Eu tinha que descobrir qual era a conexão dela com as vítimas. Todos eram homens, então eu tinha isso a meu favor. Eles tinham entre 24 e 51 anos. Eu estava perto o bastante disso. Três eram brancos, um era indígena, então raça não parecia ser um fator. Há sempre uma chance da escolha da vítima ser aleatória. Essa é a pior situação para um caçador, pois nossa única esperança é pegar o monstro no ato, o que, numa cidade do tamanho de Ashland ou maior, é quase impossível. Uma situação bem melhor é quando você consegue identificar o que o monstro está procurando em suas vítimas e se transformar no melhor exemplo possível disso. O monstro quer um cara alto, você chama Sam Winchester. O monstro quer uma garota bonita, você... bem, eu não conheço nenhuma. Então, eu chamaria o Dean.
  Eu dei mais uma olhada nos arquivos dos caras desaparecidos, continuei sem saber nada. Depois reli minhas notas de quando falei com Bea, a mãe do cara mais novo. Ela deixou seu quarto como estava para caso dele simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido. Preso na parede estava um colete laranja de caçador. Não é uma visão incomum em Wisconsin. A Sra. Lavery me contou que seu marido tinha sido avistado no pântano por um caçador de cervos. E se todas vítimas fossem caçadores e todas estivessem caçando no pântano nos dias que antecederam seu desaparecimento? A banshee pode tê-los visto, seguiu-os até suas casas e os atraiu de volta para o pântano.
  Liguei para a Sra. Lavery e descobri o nome do caçador que impediu seu marido de desaparecer na primeira vez: Bill Henderson. Não deu muito trabalho encontrá-lo em sua casa, onde ele estava enfurnado no seu escritório, pálido e nervoso. "Você está ouvindo coisas?", eu perguntei a ele. A expressão na sua cara foi o bastante para confirmar minhas suspeitas. A banshee estava atrás dele, já sussurrando em seu ouvido.
  Você tem que agarrar oportunidades como essa. Um minuto depois, eu já o tinha cercado com um pentagrama de tacos de golfe, eu tinha salgado as portas e as janelas (só para garantir) e dado uma espingarda com balas de ferro para ele. Se ele ouvisse a voz de novo, eu falei para ele atirar na direção da qual o som estava vindo. Com Henderson seguro, eu passei para o próximo passo: tornar-me um alvo.
  Eu já tinha ido ao pântano, então a banshee já me conhecia. Saí da casa do Henderson, fiquei a milhas de distância de qualquer ferro e esperei. Se ela não conseguisse pegar Bill, eu esperava que ela viesse atrás de mim no seu lugar.
  Então, esperei. E esperei. E esperei mais um pouco. A vadia devia estar realmente fixada no Bill Henderson. Decidi esperar a noite inteira no banco de trás do meu Chevelle, liguei o rádio para tentar pegar no sono, mas a música era estranha. As palavras não faziam sentido. Caramba, soava como gaélico - e era exatamente isso o que era. A banshee estava começando comigo através do rádio.
  Se superestimar é uma coisa que acontece com frequência com os caçadores - você acha que já sabe tudo sobre o bicho, você acha que sabe de todos seus pontos fortes e fracos, mas, mais vezes do que não, você tem pontos cegos no folclore e assim que você ataca o monstro, ele faz um movimento imprevisível. Eu não ia correr para o pântano. Eu estava me fazendo de difícil. Um café da manhã pacato na lanchonete local. Uma ida à loja de armas para socializar. Uma passada na loja de bebidas para reabastecer meu estoque de uísque. E, por todo esse tempo, eu ouvi a voz cantando na minha cabeça com muita atenção, tentando distinguir as palavras e memorizá-las.  A cantoria da banshee começou a me afetar - senti uma vontade forte de ir ao pântano, mas me segurei o máximo que pude. Jantar num restaurante francês - pois posso não parecer refinado, mas na casa Singer há mais do que salsichões e Budweisers. E então, finalmente, corri para o pântano, para tentar matar a banshee.
  Estava ficando escuro quando estacionei, o que era lamentável, mas necessário. Espíritos são mais ativos à noite, o que deveria ser óbvio baseado em todas as histórias de terror que você já ouviu. Não é que eles não possam dar pancadas em janelas durante o dia, mas o seu objetivo principal é fazer o maior número possível de pessoas mijar nas calças e isso é mais eficaz de noite. Há algo primitivo em nosso medo do escuro - da noite. Eu já vi homens crescidos choramingarem que nem bebês quando algo faz um barulho depois que o sol se põe.
  Deixei meu Chevelle num terreno de cascalho perto do pântano. O terreno é destinado a caçadores e amantes da natureza que querem passar o dia na bacia hidrográfica do Bad River* (de onde eles tiram esses nomes?), mas pelo estado da vegetação, fica claro que ele não era muito utilizado. Havia, ao menos, um rastro de pneus no cascalho - talvez de uma das vítimas? Mas, então, onde estavam seus carros? Eu trouxe uma espingarda e balas de ferro o bastante para terminar o meu negócio e me direcionei à lama. A luz da minha lanterna começou a falhar, o que é um sinal infalível de que alguma bosta de outro mundo está prestes a acontecer - se houvesse áreas frias (outro indício de um espírito próximo e em atividade) no pântano, eu não saberia, pois o lugar inteiro estava frio demais.
  E, então, eu ouvi o choro.
  Não é parecido com nada que você já tenha ouvido antes, nem perto do choro de uma garota adolescente que acabou de ser traída pelo namorado - é um gemido de angústia como algo que você ouviria no inferno (não que eu tenha experiência pessoal, nunca fui lá, mas alguns amigos me falaram que não perdi nada).
  A maior parte do pântano era água rasa com grama longa e árvores crescendo na lama, mas cheguei a uma seção mais profunda - mais parecido com um lago do que um pântano. O gemido estava vindo do meio do lago e eu podia jurar que a água estava borbulhando no centro, como se estivesse fervendo. Mirei minha arma no lago e virei para o Sam e disse -
  Espere.
  Sam estava lá. Sam Winchester. Que diabos está...
  Isso não está fazendo nenhum sentido. Sam e Dean estavam lá comigo. Eles estavam caçando a banshee também...
  Eu virei para o Sam, falei para ele que a banshee ia nos atacar a qualquer momento, para ele preparar seu telefone, pois, veja bem, eu tinha cantado a música da banshee para o gravador do seu iPhone e....está tudo voltando em fragmentos agora...
  A banshee, de fato, nos atacou. Mas não era o que nós esperávamos. Era - havia duas criaturas. Uma banshee e algo mais, algo que eu nunca tinha visto ou ouvido falar antes. Uma mulher, mas é como se ela fosse líquida. Como um rio correndo em forma de pessoa.
  Por quanto tempo Sam e Dean estiveram comigo? O tempo todo? Não me lembro deles comigo antes do pântano. Foram eles que me chamaram para Ashland? Onde é que eles estão agora? Eu vou ligar para eles de novo. Você pode esperar.
  Nenhuma resposta.
  De volta à banshee e... a outra coisa. A banshee estava cantando, Sam apertou play em seu iPhone, minha execução barítona da canção da bruxa começou a soar e.... a coisa sorriu. Não a banshee, a outra mulher. A banshee se debateu e respingou água e fumaça nos ares em seus espasmos finais. Com muitas outras criaturas que eliminei, ela não foi em silêncio.
  Pedaços estão faltando. Pedaços dessa história não se encaixam. A outra, a mulher do rio, ela veio em direção do Dean, nem sequer o tocou e ele se espatifou contra uma árvore, imobilizado por nada além da força da mente dela. Ela realmente o machucou, dava para ver. Sangramento interno, talvez, mas ferimentos como esses são difíceis de diagnosticar sem uma visita à sala de emergência. Sam, sendo o Sam, se jogou nela como um touro e tudo que ele conseguiu foi cair de cara na água. Isso não acontece com frequência, mas eu estava paralisado, demorei uns cinco segundos antes de me lembrar da espingarda em minhas mãos. Eu atirei nela, ela nem piscou. E foi então que ela olhou nos meus olhos. Como se ela me reconhecesse. Aquele olhar que você tem quando você vê algo que você sempre quis e está bem na sua frente... Como se ela quisesse minha cabeça numa bandeja. E então...
  Eu estava aqui. No meu sofá.
  Eu podia jurar que eu lembrava o fim da história quando comecei a contá-la. Eu podia jurar que Sam e Dean não estavam em Ashland comigo.
  O que está acontecendo comigo?

Isso não tem graça

  Eu acabei de ligar para o celular do Rufus. Esqueci por um minuto que ele se foi. A probabilidade é que ele não teria sido capaz de me ajudar, mas me faria algum bem tirar tudo do meu peito - suponho que senha por isso que estou escrevendo isso.
  Eu vou pegar uma bebida.
  Estou de volta. Não me sinto nada melhor.
  O que eu faço? Dirijo de volta para Ashland, encontro aquele pântano? Uso minha credencial falsa do FBI para colocar uma notificação de alerta geral para Sam e Dean, para ver se eles aparecem em algum lugar? Eu apenas... Eu não consigo afastar a sensação de que a resposta está na minha cabeça, que eu conseguiria consertar  se conseguisse simplesmente liberar a memória certa com uma pancada. Acho que isso significa que tenho que continuar a escrever.
  Em algum lugar entre o pântano e aqui, devo ter levado uma porrada na cabeça. Devo ter perdido o meu carro. Devo ter perdido Sam e Dean. Se eu conseguir desvendar qualquer uma dessas coisas, talvez o resto se torne presente. Não tenho nenhuma pista do O Vingador do Futuro*, nenhuma resposta dos Winchesters, então acho que é tempo de recuperar meu carro com o localizador Lojack.
  O Chevelle está na minha coleção a décadas, mas nem sempre foi meu veículo de escolha. Quando eu o achei era uma sucata, uma perda total de algum moleque em Pipestone, Minnesota. Ele conseguiu destruir o carro andando a 20km/h no estacionamento de uma loja de conveniência. É preciso ter muito talento para ser burro a esse ponto. A carroceria do carro ficou no meu ferro-velho (eu ja contei que sou dono de um ferro-velho?) por quase cinco anos antes de decidir reconstruí-lo. Se a minha memória for confiável (e, ultimamente, não tem sido), eu o fiz para impressionar uma garota. No seu auge, era algo lindo de se ver. A tinta das portas combinava, nenhuma ferrugem, nenhum arranhão. Ao envelhecer, fui ficando mais calejado e o Chevelle também.
  O carro tem sido meu companheiro por mais tempo do que qualquer pessoa que eu conheci, se isso te dá alguma dica de quantos anos ele está comigo. Mais tempo do que fiquei com minha esposa (que ela repouse em paz), mais tempo do que convivi com Rufus ou John Winchester. Mais tempo do que eu convivi com minha mãe. Nesse momento, o Chevelle não está na entrada de casa - mas eu voltei de Ashland para Sioux Falls de algum jeito e asas de anjo não brotaram em mim, e não tenho nenhuma passagem de ônibus no meu bolso. Eu acho que está na hora de fazer um reconhecimento do ferro-velho, ver se eu encontro pistas de como cheguei aqui. Se eu não terminar essa história é porque esqueci a razão de a estar escrevendo.

. . . . .

É pior do que pensei.
  Não notei isso antes, mas no portão de entrada, algum babaca maldito bateu na placa do meu ferro-velho (Pátio de Auto Salvação Singer), dobrou os suportes e raspou um pouco a tinta - tinta igual ao do Chevelle. Acho que eu sou esse idiota.
  Fui seguindo as marcas de pneu do ferro-velho, passei por um Chevy detonado que eu tinha armazenado em uma plataforma superior. Não estava mais lá. Sorte que não foi o Impala ou o Dean teria um chilique. As marcas de pneu se torceram um pouco, serpenteando até o fundo do ferro-velho, onde achei um monte amarrotado de metal. O que antes eram dois carros, agora é um emaranhado de aço e vidro - totalmente detonado. Um desses carros foi meu Chevelle. Como saí vivo dessa batida, não posso nem começar a imaginar. Eu diria que tenho um anho da guarda no meu ombro - se eu não soubesse, com certeza, que todos os anjos são uns desgraçados. Castiel sendo a exceção que prova essa regra específica.
  Tudo isso é bastante misterioso independentemente, e suscita algumas perguntas para as quais não tenho resposta, mas é apenas a ponta do maldito iceberg. O que realmente me deixou abalado é o que encontrei depois. Riscado em grandes garranchos no que restava do para-brisa do Chevelle - uma palavra.
  "Karen."
  Isso não é justo.

Karen

  Eu já estou ficando sem alguns parafusos, agora eles (ou algo, que seja) estão metendo a minha esposa no meio da conversa. Minha esposa que morreu não uma, mas duas vezes, devo ressaltar.
  Vá se danar.
  "Karen" estava escrito com grandes letras no para-brisa e, até onde sei, fui eu quem dirigiu o carro até aqui. Então, o que isso significa? É um aviso?
  Karen. O que eu posso dizer sobre a Karen? Eu devo escrever a versão de minha vida com ela sob a ótica de um caçador, todos os fatos terríveis sobre a coisa que aconteceu com ela? Devo tratá-la como um "caso"? Ou devo utilizar o que podem ser minhas últimas palavras para registrar tudo o que ela significou para mim? Devo contar as horas que ela passava ajeitando o cabelo para que tudo ficasse perfeito? Que ela me encontrava no sofá depois de tomar banho, com cheiro de alguma flor que nunca consegui identificar - e que essa é sempre a primeira coisa da qual lembro quando penso nela? Ou devo contar que ela me ensinou a cozinhar e que isso mudou a minha vida toda? Que ela me falou para eu abstrair quando eu estivesse nervoso com alguma coisa estúpida?
  Tudo se resume a uma pergunta - será que acredito que vou sobreviver a isso? Se não, nada me impede de dar a versão piegas. Mas não estou nem perto de desistir. Então, tenho que seguir em frente.
  Eu conheci Karen quando ainda era um garoto jovem. Eu tinha ambições como todo mundo, mas elas não eram muito grandes. Eu queria trabalhar carros. Eu queria viver uma vida confortável, terminar o trabalho às cinco e tomar uma cerveja às cinco e meia. Não é pedir muito, no grande esquema das coisas. Uma vida simples. A primeira vez que vi Karen, eu me arrependi de tudo isso. Desejei ser uma pessoa mais interessante da cidade grande, alguém com um emprego chique e uma carteira gorda. Mas nada disso importava para ela. "Eu pensei que você tinha decidido dar a versão não piegas, seu exibido", você diz. Eu estou chegando a algum lugar importante, então pare de reclamar. Ela queria a vida simples que eu tinha. Nós éramos felizes juntos, o que é raro para caramba, se você me perguntar. Karen não queria nada de mim que eu não pudesse oferecer.
  Então, quando ela me atacou com uma faca de cozinha, fiquei surpreso. Eu consegui pegar sua mão um pouco antes de ela enfiar a lâmina no meu peito; eu estava tão ocupado tentando afastá-la que nem notei o cheiro de enxofre nela. Tudo que eu conseguia ver era a gravação na lâmina da faca, perto do punho: "De: Bobby". Bem, aí está uma ironia ou o que quer que seja - ela estava a ponto de me matar com o conjunto de facas que dei para ela de Natal. Quando a joguei para longe, consegui dar uma boa olhada nela. Ela era a mesma mulher que amei por anos, mas seus olhos estavam tão pretos quanto um buraco no chão. Ela estava vestindo as mesmas roupas, os mesmos brincos, mas algo dentro dela tinha apodrecido.
  A coisa que a estava possuindo não tinha nenhuma razão para vir atrás de mim. Ela fez aquilo pela diversão doentia e lunática. Como ela chegou a Sioux Falls, eu nunca vou saber. Um pit stop no caminho para o abismo, talvez. O que estava muito claro é que a coisa estava a fim de brincar comigo antes de me matar. Um gato com um rato. Eu gostaria de pensar que eu teria conseguido me defender sozinho, mesmo antes de saber qualquer coisa sobre o sobrenatural, mas não vou mentir para mim mesmo. Eu não tinha ideia do que estava enfrentando, nenhuma dica de como me proteger. Bem parecido com a situação na qual me encontro agora. A diferença era que tudo que eu queria era ter Karen de volta. Porque mesmo se ela me matasse, eu iria passar a eternidade toda me arrependendo de não a ter ajudado. Minha esposa estava... quebrada e eu não podia consertá-la.
  Eu me desviei da faca quando ela me arremessou, mas isso foi só o começo. Ela veio para cima de mim com um machado, achou um dos meus rifles de caças jogados por aí - ela não desistia. Aquilo não desistia, a coisa dentro dela. Não há porque dourar a pílula, foi o pior dia da minha vida e eu já vi dias realmente horrorosos.
  Então... eu reagi. Demorei horas para aceitar isso, mas aí estava. Eu me disse que tinha de fazê-lo, para o bem dela. Pensei que ela devia estar doente, alguma coisa não estava certa com sua cabeça. Se eu conseguisse controlá-la, levá-la para um hospital, os médicos iam descobrir o que estava errado. Mas eu tinha que contê-la antes e eu sabia que não ia ser fácil. Eu não tinha noção.
  Eu estava me escondendo no ferro-velho. O desgraçado filho da puta estava dentro da mente de Karen, ele sabia o que ela sabia, mas mesmo Karen não conhecia o ferro-velho tão bem quanto eu. Quando decidi que era hora, voltei para casa, segurando uma espingarda carregada com um tiro para passarinho (temporada de faisão). Eu me convenci que não ia precisar usá-la, que a loucura já teria passado quando eu chegasse. Errado. Quando a encontrei na sala de estar, ela estava com a faca para açougue na mão, aquela com a gravação e ela estava gritando como... como o inferno. Fazer aquele som deve ter arrebentado as cordas vocais dela, mas o desgraçado não estava nem aí. Eu falei para ela largar a faca ou eu ia atirar. Minhas mãos estavam tremendo tanto que mesmo uma criança de quatro anos ia perceber que eu estava blefando.
  E, então, ela virou a faca em direção de si mesma. Pressionou-a contra sua pele, me disse que ia se estripar se eu desse mais um passo. Talvez você tenha uma mulher ou marido. Imagine que eles dessem essa escolha a você. Me diga que isso não te consome, que isso não faz o mundo todo parecer... errado.
  Soltei minha espingarda. Qualquer homem faria isso. Karen riu de mim. Gargalhou. A faca na sua mão pendurada baixa e mortal, pronta para atacar. Eu sabia que eu tinha que tirar a faca dela, que eu nunca teria a vantagem enquanto ela tivesse a faca. Eu deveria ter atirado quando tive a chance. Teria me poupado do que aconteceu depois.
  Naquele tempo, minha casa era diferente do que é agora. Hoje em dia, é, basicamente, uma biblioteca com um quarto ou outro com uma pia ou uma banheira ou uma cama misturados com os livros de conhecimento, mapas, gráficos, bíblias e livros sagrados de toda igreja que já existiu. Naquela época, era um lar. A sala de estar era benfeita, com uma tinta decente nas paredes e móveis que combinavam. Tudo por causa da Karen. Havia uma cadeira com um nome francês que eu não lembro, era a favorita dela. Era grande o bastante para enroscar-se e ler um livro em um dia preguiçoso de verão. Ela ficava tão compenetrada nas histórias que o gelo derretia em seu chá antes mesmo de ela dar um gole. Eu tive que jogar a cadeira fora por causa do sangue todo.
  Eu me movi o mais rápido que pude, mas ela era mais rápida, impossivelmente rápida. Minhas mãos estavam em seus braços, mas eu não conseguia segurá-la - ela brandiu a faca e dilacerou meu bíceps esquerdo. Eu ainda tenho até hoje a cicatriz onde ela cortou. Tudo que senti foi o sangue quente correndo e empapando todo meu lado esquerdo, jorrando em sincronia com o meu batimento cardíaco. Arterial. Mortal.
  Enquanto eu estava distraído, ela me atacou de novo. Uma linha irregular entalhada no meu peito, não profunda o bastante para fazer algum dano sério, mas assustadora o bastante para me fazer cair para trás. Essa era a mulher com quem eu queria ter... essa era Karen. E, agora, meu sangue estava espirrando na cara dela, ela estava sorrindo de um jeito monstruoso, pingos vermelhos nos seus dentes branco pérola. Um tubarão, rondando.
  Tive que utilizar toda a minha força para conseguir ficar em pé. E não quero dizer força física, quero dizer que estava pronto para desistir. Eu teria morrido contente, cem vezes, para não ter tido que fazer o que fiz com Karen.
  Ela brandiu a faca de novo e eu botei minha mão na frente da lâmina. Minha mão esquerda, que já estava quase inútil devido à perda de sangue. Não estava dormente a ponto de eu não sentir a faca entrando na minha palma, porém. A lâmina cavou dentro da minha pele, enviou um choque para a minha espinha e fez meu corpo todo se acender com nervos que eu nem sabia que tinha, todos eles gritando de dor. Mas funcionou. A lâmina ficou presa na minha mão e ela ficou surpresa o bastante para hesitar na hora de puxá-la. Eu lutei contra a dor, puxei a lâmina da minha própria mão - estava escorregadia por causa do sangue, meu sangue, e quase tombou da minha mão boa.
  E...
  A primeira vez que vi Karen foi em um domingo. Ela estava com um vestido de verão, todo florido e jovem, sorrindo com sua prima enquanto elas iam embora da missa. A última vez que vi Karen, ela tinha um buraco na sua barriga no lugar onde a esfaqueei. Não uma vez só. De novo e de novo, eu... Eu perdi o controle. Não me assusto facilmente, mas eu estava com muito medo - claro que estava, ela foi a melhor coisa que já me aconteceu e eu a estava matando. Eu já sabia então que nunca ia conseguir me perdoar.
  Mas ela não morreu logo. Ela se levantou, o sangue gjorrando como se eu tivesse aberto uma torneira no peito dela e a coisa me atacou de novo. Usando seus dedos como garras em mim enquanto eu a esfaqueava de novo.
  Mais alguns segundos e ela teria me matado. Para minha sorte, ela não teve mais alguns segundos. Eu tinha ouvido um estampido atrás de mim quando ela estava segurando a minha garganta, mas não prestei atenção - eu tinha problemas maiores. Quando a janela estilhaçou-se, isso prendeu minha atenção. Através dela vi um homem segurando uma arma. No meu estado, achei que ele estava lá para me prender por ter machucado minha esposa... e, então, eu olhei para ela. Olhos negros, coberta de sangue, sorrindo que nem uma maníaca - não era mais minha esposa. Esse foi o momento no qual percebi que a mulher com quem eu me casei já estava morta.
  Um segundo depois, sal grosso a atingiu. Arremessou-a para a parede dos fundos, sangue espirrando por toda a sala em cima da sua cadeira favorita. Vapor saiu de sua pele como se ela fosse uma frigideira quente demais para ser tocada. O homem disparou mais uma vez para garantir. Ele a encurralou perto da porta da cozinha, o sangue empapando o chão embaixo dela.
  Ele retirou uma garrafa do bolso da sua jaqueta, a encharcou com ela e a pele dela tostou como se ele tivesse tacado ácido nela. Por um segundo, pensei que era isso que ele estava fazendo. No calor do momento, quase me joguei em frente dela... como se fosse meu dever proteger o corpo morto e sobrenaturalmente possuído de minha mulher. Eu não conseguia ver direito, quanto menos pensar direito.
  Enquanto Karen (a coisa dentro de Karen) chiava no canto, o homem engatinhou pela janela. Puxou-a pelos cabelos e a arrastou como uma boneca de pano para dentro da cozinha, onde ele segurou sua cabeça dentro da pia. Por todo esse tempo eu estava apenas observando tudo que nem um paspalho da sala de estar, mal sentindo minhas pernas. Eu não me senti tão imóvel assim de novo até o dia em que eu acabei em uma cadeira de rodas, mas essa é outra história.
  A água estava correndo, quase fervendo, enquanto o homem segurava sua cabeça debaixo da bica. Ela resistiu, mas não parecia estar muito incomodada com o afogamento em si - até que ele começou a rezar. Eu não entendi uma palavra do que ele estava dizendo naquela época - mas era, claramente, parte de um ritual religioso. Parecido com as missas em latim que eu frequentei quando era pirralho. Sei agora que ele estava abençoando a água, tentando afogá-la em H2O benta. O que quer que ele estivesse fazendo, fez com que ela gritasse como... a maioria das pessoas diria como uma banshee, mas agora eu sei mais. Absolutamente horrível, o som que ela fez.
  Não demorou muito para a coisa dentro dela desistir e decidir se encaminhar para um lugar mais infernal. Ela se desvencilhou do homem, jogou sua cabeça para trás e urrou - arrotando uma fumaça espessa, preta e oleosa. Entendi, imediatamente, que a fumaça era a coisa que a estava possuindo e aquilo estava partindo. A fumaça zanzou pela minha cozinha com um propósito, serpenteando por mim e para fora da janela quebrada, desaparecendo na noite.
  O corpo de Karen despencou no chão, morto como uma pedra. Estava frio ao toque, como se ela estivesse morta a horas. Eu me lembro de ter botado a mão na sua barriga, sentindo o frio do sangue pegajoso em seu vestido. Não me parecia natural. Dedos tocando o buraco em farrapos onde minha faca rinha cortado o tecido. Eu queria deitar ao seu lado e morrer eu mesmo. E o teria feito se não fosse o homem parado na minha cozinha com uma espingarda.
  Eu não tive sequer um minuto para lamentar antes de ele estar me dizendo o que fazer, me dizendo como eu deveria lidar com a situação. Como poderíamos limpar a cena, garantir que não me culpassem pela sua morte. Isso era a última das minhas preocupações. Eu só... eu só queria dizer adeus a ela. Eu queria saber que diabos tinha entrado na minha casa e feito essa coisa medonha com a minha esposa. E esse desgraçado quer falar sobre como se livrar do cadáver? Eu gritei com ele. Disse coisas que nenhum homem são diria, porque naquele momento eu não era um homem são. E não era um maldito cadáver, era minha esposa. Aquela era o último momento que eu teria com ela e eu o passei discutindo com Rufus. Acho que ainda não tinha mencionado isso. O dia em que conheci Rufus Turner foi o dia no qual tive que matar minha mulher. Jeito nefasto de começar uma relação de trabalho, se você me perguntar o que acho.
  Até hoje, não consigo me lembrar do que disse para ele. Tudo que sei é que palavras foram trocadas, curtas e raivosas, enquanto eu tentava explicar o que tinha acontecido e ele tentava me explicar o que realmente tinha acontecido. Rufus já era um caçador com vários entalhes em sua espingarda e reconhecia uma possessão quando via uma. Eu era um mecânico que só sabia falar coisas incoerentes. Esse seria um bom lugar para te contar algo sobre Rufus, mas acho que isso vai ter que esperar. Até eu ter bebido mais ou chegar mais próximo de estar a sete palmos debaixo da terra. Assunto delicado.
  A única coisa da qual consigo me lembrar sobre a nossa conversa é do que ele chamou aquela coisa que possuiu Karen: demônio.

Demônios

  Há uma história que ouvi quando criança. Sobre um garoto que vai até sua mãe toda noite e diz que tem um demônio do lado de fora da janela dele. Toda noite, ela fala para ele que não é verdade, volte para a cama, tente não mijar nos lençóis. O garoto sabe que alguma coisa está la fora, então ele pega uma lanterna e vai procurá-la. Garoto estúpido, na minha opinião. Sua mãe o flagra quando ele acabou de sair pela porta da frente. Fala para ele voltar para cama, sonhar com os anjos. O garotinho não quer ouvir e dez minutos depois está lá fora de novo procurando o demônio. O final feliz? Nunca ninguém mais ouviu falar do garotinho. Moral da história: ouça sua mãe. O que você acha desse conto infantil inspirador? Acho que eu tinha pais estranhos.
  Demônios são o pior dos piores. E há uma boa razão para isso. Cada demônio era, originalmente, uma alma humana que foi enviada para o inferno pelas coisas más que eles fizeram enquanto ainda vivos. O inferno não é um lugar divertido e alguns dos meus amigos podem corroborar isso. Ele deforma, quebra e aperta você, transformando um carvão em diamante, mas o diamante mais feio, malvado e cruel que você já viu. Não foi uma analogia clara? Que seja. Nenhum humano merece virar isso, não importa que coisa perversa tenha feito na Terra.
  A forma nativa de um demônio é fumaça preta, como aquele monstro da série LOST. Talvez eles tenham se utilizado no folclore sobre os demônios quando eles inventaram isso. Acontece mais do que você pensa. E caso não tenha ficado claro com a história da  Karen, demônios entram pela boca dos humanos quando os possuem. Como vomitar, mas ao contrário. Troço doentio. Você sente o gosto de enxofre o dia todo. Certo, isso me lembra de:
  Sinais demoníacos:

  • Enxofre. Se você está investigando uma morte misteriosa ou um desaparecimento, a primeira coisa que você deve procurar é enxofre. Demônios deixam um rastro quando eles entram e saem dos corpos, nas janelas - ou em qualquer outro objeto físico com o qual entram em contato. Para nossa sorte, enxofre fede que nem culhão - muito fácil de detectar numa cena de crime.


  • Tempestade com raios. É difícil saber se uma tempestade é um presságio ou apenas um tempo ruim. Ambos acontecem com bastante frequência e, geralmente, vale a pena checar as áreas que tiveram relâmpagos sem chuvas, olhando o jornal em busca de outras coisas suspeitas que estejam acontecendo. Como:

  • Mutilação de gado. Não sei porque eles fazem esse tipo de coisas com vacas, mas todas as histórias sobre mutilações bovinas no jornal de Bumfuck, Nebraska, não são da autoria de homens verdes e pequenos, foram os demônios. Até onde eu sei, eles não ganham nada de vantajoso com isso. Não me surpreenderia se eles o fazem para passar o tempo ou apenas para nos confundir.

  O folclore sobre os demônios começou a muitooo tempo atrás. Pinturas nas cavernas de homens palitos mostram fumaça saindo da boca das pessoas... a porra do Barney Rubble* já estava desenhando demônios nas paredes da sua casa milhares de anos antes dos homens descobrirem a agricultura. Se isso não não convence você de quão arraigados esses seres estão na nossa cultura, nada mais vai. Demônios são o anti-humano - eles são o que acontece quando não somos dominados peça nossa consciência, pelas leis, pela comunidade... eles são a nossa pior parte, ampliada mil vezes.



*Swords: Significa espadas.
*Bad River: Significa Rio Mal.
*O Vingador do Futuro: Filme de ficção científica de 1990 no qual Schwarzenegger tenta recuperar sua memória.
*Barney Rubble: Personagem de Os Flintstones.

{ 11 comentários... read them below or Comment }

  1. WOW!!! Simplesmente fantástico!!! Gostei, poste mais!!! *-*

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    1. Vou postar sempre que possível :D
      Vou tentar postar por capítulos para compensar a demora...

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  3. OW MUITO BOM, INCRIVEL ESSE LIVRO É FANTASTICO!!!! POSTE MAIS...

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  4. ow perfeito , fantástico este livro!!! poste mais !!

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    1. Vou começar a postar novamente... tinha parado porque estava trabalhando nos episódios de spn pra poder acompanhar os novos que vão sair ainda...
      Amanha já vai ter mais um pedaço disponível do livro.

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    2. :-D.... by: Matheus f.v

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  5. Alessandra Silva9 de julho de 2014 14:41

    Fantástico, simplesmente brilhante ☺
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    1. Comentários realmente me motivam a postar mais, mostram que as pessoas estão gostando.... então, esta ai, capitulo "Karen" está completo :D

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  6. GOSTARIA Q CONTINUASE O POSTE QUANTO VC TIVER TEMPO

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    1. eu estava com um problema com meu navegador e não conseguia acessar o Blogger, peço desculpas. Vou voltar a postar semanalmente :)

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